A inteligência artificial pode acelerar tarefas, analisar informações e produzir respostas em poucos segundos. Mas, à medida que essas ferramentas assumem parte do trabalho, surge uma questão importante: o que acontece com as competências que as pessoas desenvolvem ao realizar essas atividades?
Um estudo do IBM Institute for Business Value, realizado em parceria com a Oxford Economics, reuniu duas pesquisas: uma com 1.500 executivos responsáveis pela estratégia de pessoas e outra com 8.800 trabalhadores em 28 países. Entre os trabalhadores entrevistados, 60% demonstram preocupação com a perda de competências associada ao uso da IA, com destaque para o pensamento crítico. O resultado expressa a percepção dos participantes, não uma comprovação de que o uso da tecnologia necessariamente reduz essas capacidades. Ainda assim, aponta uma questão que as organizações precisam considerar ao redesenhar o trabalho.
1. O que o estudo da IBM revela sobre inteligência artificial no trabalho
A pesquisa encontrou uma diferença entre as competências que executivos de RH consideram essenciais e aquelas às quais os profissionais dão prioridade. Para 71% dos diretores de recursos humanos (CHROs) entrevistados, a capacidade de supervisionar, validar ou contrariar respostas produzidas por IA é prioritária. Entre os trabalhadores, 38% priorizam essa mesma capacidade. A diferença sugere um desalinhamento entre o que as organizações esperam dos profissionais e a importância que eles atribuem à avaliação das respostas da tecnologia.
Esse descompasso importa porque a adoção da ferramenta muda as exigências do trabalho. Quem antes construía análises desde o início pode receber a primeira versão pronta com o apoio da IA. . A tarefa passa a incluir a avaliação das fontes, das premissas, das omissões e das consequências daquela resposta. Sem critérios para fazer essa avaliação, o profissional ganha velocidade na produção, mas pode perder clareza sobre a qualidade do que entrega.
O estudo também mostra que a preocupação não está restrita aos trabalhadores: 46% dos executivos de RH citam a erosão de competências entre seus principais receios. O futuro do trabalho, portanto, exige atenção ao que as pessoas aprendem e ao que deixam de praticar quando a empresa incorpora IA à rotina.
2. Usar IA também exige saber questionar a IA
A resposta da IA pode parecer convincente mesmo quando interpreta uma pergunta de modo equivocado, ignora uma informação decisiva ou apresenta uma conclusão que os dados não sustentam. Identificar esses problemas exige conhecimento do contexto e capacidade de formular uma hipótese própria antes de aceitar a resposta da ferramenta.
Pense em uma análise de pessoas que recomenda alterar a composição de uma equipe. O sistema reúne indicadores e sugere o caminho, mas alguém precisa verificar o que os números deixam de fora, quais critérios orientaram a recomendação e quem será afetado pela decisão. Em outros casos, o profissional precisa reconhecer que não dispõe de informação suficiente e interromper o processo. A responsabilidade pela decisão continua com as pessoas e com a organização.
Essa responsabilidade precisa aparecer nas regras de trabalho. No levantamento da IBM, 43% dos profissionais dizem que a culpa recai sobre eles quando algo dá errado com a IA, enquanto 41% dos CHROs acreditam que os trabalhadores podem não se sentir seguros para questionar ou contrariar as respostas da IA. . Pedir julgamento crítico sem dar espaço para exercê-lo enfraquece a supervisão humana que a empresa afirma valorizar.
3. O risco de desenvolver proficiência na ferramenta e perder repertório
Parte do aprendizado profissional nasce do trabalho que precede a resposta: pesquisar, comparar possibilidades, encontrar inconsistências, defender uma escolha e descobrir por que ela falhou. Quando a IA assume todas essas etapas, a pessoa recebe o resultado sem necessariamente desenvolver o repertório necessário para avaliá-lo.
Esse risco merece atenção especial no início da carreira. Em uma análise da Gartner sobre profissionais em início de carreiraalerta que entre profissionais pouco experientes em funções que exigem julgamento, a capacidade de dar comandos à IA pode avançar mais rápido que a experiência necessária para avaliar suas respostas. Lidar com esse risco não exige excluir a tecnologia dessas funções, mas preservar oportunidades de análise, prática e revisão com profissionais mais experientes.
A escolha das tarefas delegadas à IA, portanto, precisa considerar o valor de cada atividade para a formação das pessoas. Uma etapa repetitiva pode consumir tempo sem acrescentar aprendizado relevante. Outra, embora demorada, ensina o profissional a reconhecer sinais, lidar com exceções e tomar decisões. Medir apenas o tempo economizado esconde essa diferença.
4. Como a educação corporativa pode responder à mudança
A capacitação para usar ferramentas é necessária, mas a educação corporativa também precisa preparar as pessoas para avaliar aquilo que a tecnologia produz. Isso inclui formular problemas com precisão, conferir evidências, reconhecer limitações, sustentar uma decisão e saber quando interromper ou corrigir uma recomendação da IA.
Essas capacidades se desenvolvem em situações próximas do trabalho real. As equipes podem comparar uma análise própria com a resposta da ferramenta, investigar casos em que a IA errou e discutir quais informações faltaram para chegar a uma decisão melhor. A avaliação desse aprendizado precisa observar a qualidade do raciocínio e das escolhas, além da rapidez da entrega.
O RH tem um papel nessa discussão porque o desenho do trabalho determina quais competências as pessoas terão oportunidade de exercer. Ainda assim, segundo a IBM, 46% das organizações não envolvem o CHRO na definição de sua estratégia de IA. Quando a tecnologia entra primeiro e a discussão sobre pessoas vem depois, a empresa perde a chance de decidir quais capacidades precisa preservar desde o início.
Conclusão
A IA pode tornar o trabalho mais rápido, mas não elimina a necessidade de julgamento. Pelo contrário: quanto maior a capacidade de execução da tecnologia, maior a importância das competências humanas necessárias para avaliar, contextualizar e decidir sobre aquilo que ela produz.
A inteligência artificial altera as tarefas e, com elas, as oportunidades de aprender pela prática. Cabe às organizações escolher quais atividades delegar, quais decisões manter sob responsabilidade humana e como preparar profissionais para exercer essa responsabilidade.
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