Por que economizamos tanto amor nas empresas?

Desde que entrei no mundo corporativo ouço que precisamos economizar dinheiro. É preciso ter consciência de como ele é investido. Também é preciso economizar tempo. Não desperdice tempo em reuniões infrutíferas.

Economize sua energia também. Você não tem condições de fazer tudo ao mesmo tempo. Para evitar um Burnout, economize seus aborrecimentos. É melhor ter razão ou ser feliz? Ouvimos também que é importante economizar desgastes com as pessoas. Não brigue por algo que não vale a pena. Economize os desgastes. Economize também as suas férias. Tire um pouquinho agora, depois você tira o resto. São tantos os conselhos e economia?

Mas onde foi que erramos passando a economizar o amor?

Existe muita economia de amor dentro das empresas. Quando não falamos o que pensamos, estamos economizando amor. Quando a informação não é compartilhada, quando há uma competição entre colegas, quando o cliente fica esperando uma resposta que não vem, há uma enorme economia de amor.

Se alguém pede uma licença médica e não volta, os amigos não ligam mais. O chefe não liga mais. Rapidamente o RH dá um jeito de substituir a vaga, o tal headcount. É “head” por que não é “heart”. Se fosse heartcount haveria amor.

Se os resultados não são atingidos, as pessoas são demitidas. Falamos que “não é nada pessoal, mas vamos te demitir”. Não é nada pessoal? Então não há amor. Se fosse pessoal haveria amor e não haveria demissão. As pessoas estão muito mais interessadas em plano de carreira ou quando vão ser promovidas.

E quando falamos só em grana ou promoção é porque não há mais nada que nos prenda ali.

Quando falta feedback falta demonstração de que nos importamos com a pessoa. Falta amor. Quando não ensinamos as pessoas uma nova tarefa, quando ficamos preocupados que alguém se destaca mais do que a gente, sobra o ciúme, o ego, a vaidade e falta amor. Há uma crise de amor dentro das empresas. Ninguém fala sobre isso.

Pode sobrar dinheiro, mas falta amor.

Algumas broncas do chefe podem ser por falta de amor. Principalmente se ele reclama que falta energia nas pessoas, falta resultado, falta cliente ou falta matéria prima. Nunca ouvi ninguém reclamar da falta de amor.

Os ambientes sem amor são silenciosos pois não há tempo de conversar com os colegas. E se tomamos uma decisão excluindo o lado emocional e privilegiando o racional, abandonamos o amor. Se não comemoramos as pequenas conquistas e se esquecemos por que estamos trabalhando é porque não existe nada de valor dentro do coração. É tudo oco.

Comemoramos uma conquista, um prêmio, uma promoção, mas no dia seguinte vem o vazio. Uma sensação de “era isso, então?”. Deixamos de viver e passamos apenas a existir, a reagir.

Se vivemos a era da abundância, essa era é a de coisas, mas é uma era de escassez de amor.

Se o mal é a ausência do bem, a guerra é ausência de amor. Pessoas deveriam ser demitidas por justa causa por ausência de amor. Mas nestes tempos loucos, algumas, por ironia do destino, são demitidas por excesso de amor.

Se há disputa entre as áreas é porque falta amor. Se o chefe chega para trabalhar e não dá bom dia ou se trata todo mundo mal é por que não tem amor. O amor deveria ser avaliado no processo seletivo: Quanto amor você pode distribuir aqui?

O amor deveria ser abundante. Jorrar por todos os lados. Ao invés de um funcionário se sentir prestigiado, ele deveria é se sentir amado. Você já se sentiu amado por alguém? Existe algo melhor na vida do que ser realmente, verdadeiramente amado?

Será possível trabalhar em uma empresa onde nos sentimos amados, de verdade?

O amor deveria ser ostentado. Ao invés das prateleiras de troféus deveríamos nos orgulhar de estar em uma empresa onde as pessoas sentem as emoções genuínas aflorando. Não deveria haver economia no amor. O amor deveria ser gasto por todos os lados. Jorrando pelos cantos das empresas.

E antes que você me pergunte como materializar o amor nas empresas, pergunte a você mesmo se você demonstra amor. O amor é elogio, é escutar verdadeiramente a pessoa que trabalha contigo. O amor é respeitar o limite do amigo que senta ao seu lado. É saber que você é um eterno aprendiz. É reconhecer que o nome do cargo não significa nada. Amar é pedir para o outro te chamar de “você” e não se “Senhor ou Senhora”. Amar é pedir para não te chamarem de Doutor.

Amar é sorrir no ambiente de trabalho. É chamar todo mundo para almoçar e não somente os seus amigos da panela. Amar é contar aquilo que você não sabe fazer bem, é ser vulnerável.

Amar é reconhecer que erra, que tem seus medos. Amar é pedir desculpas. Amar é vida, seja ela dentro ou fora do trabalho. Não deveria haver economia de amor. Ele não é uma poupança que guardamos para usar mais tarde. O amor é hoje. Precisa ser gasto porque se renova. Renova a vida. É o que nos empurra para a frente. Uma vida sem amor não é vida.

Se você não consegue dar amor no seu trabalho ou não se sente amado, vá procurar o seu por aí. Demita-se da empresa. Se te perguntarem o que faltou, seja sincero. Não foi o aumento que não veio, foi uma enorme falta de amor. Temos pouco tempo neste planeta para viver em um lugar que não tenha amor. Não temos um segundo a perder com alguém que não transborda amor. A vida tem pressa. Pressa de amar.

Alberto Roitman é Chief Chaotic Officer da Escola do Caos, autor dos livros Você é o que Você entrega e A Última Chance. Podcaster no Caos Corporativo (Spotify), sócio do Armazém e LinkedIn Creator.

Share on linkedin
LinkedIn
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter