Pesquisas de Clima realmente retratam a verdade?

Atire a primeira pedra quem nunca desconfiou se os resultados das pesquisas de clima são realmente confidenciais. Muita gente pensa que é melhor não correr o risco falando a verdade.

Ouça o episódio “Seja sincero e perca o emprego” no podcast Caos Corporativo!

Realmente temos muita insegurança em falar o que pensamos no ambiente corporativo. Até por que a liderança de diversas empresas prefere demitir quem “joga o sincerão” do que ter que atuar para se modernizar ou enfrentar os gaps que possui.

Jogar a poeira para baixo do tapete é, em muitos casos, mais rápido, barato e menos desgastante. Só que não.

É clássico ver que em muitas empresas as frases estampadas nos quadrinhos de Missão, Visão e Valores não são verdadeiras na hora de ouvir o colaborador. E assim, diversas anomalias surgem. Vou listar apenas algumas delas. E será muito interessante saber se você concorda comigo, ou não. Vamos lá.

1.Muitas empresas que se gabam de ter um clima incrível têm um número recorde de reclamações trabalhistas, afastamentos por Burnout, estresse e um aumento vertiginoso de gastos com planos de saúde de funcionários.

Mesmo assim, são lugares incríveis para se trabalhar.

Os próprios funcionários dizem isso nas pesquisas, mas nos bastidores reclamam que não existe meritocracia, os líderes são toscos e não há plano de carreira.

2. Diversos Presidentes, Vice e diretores têm bônus atrelado à Pesquisa de Clima.

Se o resultado for positivo, ganham mais dinheiro. Então, é impressionante perceber que uma ou duas semanas antes da aplicação da pesquisa “ficam bonzinhos”, da noite para o dia.

Saem dando feedbacks positivos para todos, passam a sorrir pelos corredores e viram gente boa. Depois que a pesquisa é aplicada, voltam ao estado natural. Alguns desavisados preenchem a pesquisa pensando muito mais no futuro do que no presente. Aí temos a sensação que a empresa é incrível, mas é só uma cortina de fumaça.

O bônus jamais deveria estar atrelado a qualquer pesquisa de clima para não induzir líderes a mudarem seus comportamentos.

3. Falta de confiança no RH.

Alguns funcionários acreditam que a pesquisa é sigilosa para seus chefes, preservando as respostas mais críticas, mas ainda assim não confiam que o RH saberá guardar segredo. Por outro lado, é triste saber que em algumas empresas o RH é fraco e tem dificuldade em conversar com os líderes sobre as críticas que receberam.

4. Alguns formatos de pesquisa de clima contribuem para que a empresa saiba identificar de onde vieram as críticas.

Isso acontece porque algumas áreas são pequenas e falar algo desagradável é correr o risco de se auto incriminar ou prejudicar os colegas. Algumas respostas por escrito também podem denunciar os funcionários, já que determinados vocabulários deixam claro quem a escreveu. O funcionário, então, escreve com a outra mão, cheia de garranchos para não correr o risco de chamarem um técnico em grafologia para identificar o “mimizento”.

Sim, muitos funcionários que reclamam são chamados assim por líderes que são criticados.

5. A pesquisa de clima é um acontecimento pontual e não recorrente.

Isso dá margem para que as pessoas escrevam com cuidado o que pensam. Outra oportunidade como esta somente no ano que vem. Pesquisas de clima deveriam ser perenes, assim como o NPS. Hoje, o clima na diretoria pode estar ótimo. Funcionários deveriam pontuar. Amanhã, pode não estar. Funcionários deveriam pontuar, também. Clima é filme, não foto.

A culpa não é da pesquisa. É de quem a aplica de forma errada. Deveria ser o principal instrumento da busca da verdade. Não existe mais espaço no mundo corporativo para a hipocrisia.

Mas em outras, a pesquisa é sériaO RH é forte e tem consciência de sua responsabilidade. Líderes levam a sério as respostas e se importam muito mais com o conteúdo do que a forma com que a mensagem foi escrita. Empresas assim são admiráveis. Elas existem. Conheço várias.

Nessas empresas o clima incrível é consequência de um trabalho sério. E muitas destas sequer fazem marketing dos resultados que têm. Realmente uma empresa precisa fazer marketing dizendo que seu clima é incrível, ou basta que seus próprios colaboradores, apaixonados por ela, façam isso espontaneamente?

Alberto Roitman é Chief Chaotic Officer da Escola do Caos, autor dos livros Você é o que Você entrega e A Última Chance. Podcaster no Caos Corporativo e sócio do Armazém.

 

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