Não há mérito algum em ser um profissional Multitask

Ao longo de nossas vidas profissionais passamos a ouvir dogmas que “explicavam” o segredo para se alcançar o sucesso. O pior deles, ao meu ver, de que trabalhar muito vai diferenciar o bom profissional do ruim.

Posso garantir que a maior parte das pessoas que conheço, que trabalham muito, são muito mais ocupadas do que produtivas.

O conceito ganhou ainda um entorno pior na pandemia. Encher a agenda de reuniões passou a ser uma forte simbologia de que estamos trabalhando. Na verdade, estamos apenas reagindo. Parece que, se nada estiver na agenda, nada está sendo feito. Estaria o mundo cheio de Reis e Rainhas do e-mail e carente de profissionais que geram resultado? Creio que sim.

Para os que trabalham muito, e adoram a sensação de que estão com a sensação de “dever cumprido”, vai aqui uma provocação:

Qual o verdadeiro valor você está gerando para quem paga seu salário? Você ganha por reuniões e por mensagens de WhatsApp respondidas? Ganha algo por cada atividade circunstancial que se envolve?

Seria possível avaliar os verdadeiros indicadores de entrega que você realmente gera? Segundo o autor inglês, Greg McKeon, no livro Essencialismo, uma das principais virtudes de um bom profissional é saber dizer não à enxurrada de temas que nos sugam na rotina de “infoxicação” que temos.

Vendedores passaram a justificar o desempenho pífio de vendas diante da “enorme” quantidade de atividade administrativa que possuem. Líderes deixam de formar pessoas da equipe por que estão envolvidos em planejamento ou resolvendo problemas. Profissionais de backoffice não atuam tanto quanto deveriam pois reclamam que o sistema é complicado ou o processo é lento.

Se analisarmos pelo lado científico, já foi provado e divulgado pela Associação Americana de Psicologia, de que nosso cérebro entre em um “estado de latência” quando estamos focados em uma única atividade.

Isso significa que nossa energia cerebral fica totalmente direcionada para a execução de uma tarefa, colocando em alerta todos os nossos neurônios dedicados à concentração e à produtividade.

São necessários 10 minutos ininterruptos para que este estado aflore e possamos atingir nossa capacidade máxima de atuação. Interromper este estado para realizar outra atividade, no famoso multitasking, estaciona a concentração e faz regredir o cérebro ao estado de descanso. São necessário mais 10 minutos para alcançar nova concentração. Portanto, parar para realizar outra atividade é pedir para o cérebro não fazer bem nem uma coisa, nem outra.

O estudo foi corroborado pelo psicólogo croata Mihaly Csikszentmihalyi, falecido em 2021, que publicou o maravilhoso livro Flow. Para ele, a capacidade máxima de concentração acontece ao se realizar uma única atividade por 15 minutos consecutivos, sem interrupção. Parar para um cafezinho, ou simplesmente olhar o e-mail que apitou na sua caixa, te retira do estado de flow, e convida o cérebro a deixar de irrigar as área responsável pela tomada de decisão, ou seja, o córtex frontal medial.

A escritora grega Arianna Huffington, em seu livro Thrive, também defende esta teoria. Muitos profissionais começam a trabalhar com a “simples” atitude de abrir sua caixa de e-mail e verificar as mensagens, assim, adota-se como primeira atitude do dia, uma postura reativa. Trabalhar bem, segundo Arianna, é iniciar os trabalhos sem checar as mensagens que recebeu. Produza intensamente, em estado de flow, e somente depois de realizar o que se espera do seu job description, abra seu e-mail.

O mesmo vale para as pessoas que colocam o despertador pelo celular. Ainda deitado, uma quantidade enorme de profissionais, ao acordar, checam suas mensagens de Whats, e-mail e as redes sociais, e assim, a postura subserviente acontece logo ao abrir os olhos, ainda na cama.

Paul Zak, neurocientista americano, também comprovou que, fazer muitas coisas ao mesmo tempo não é sinal de ser um bom profissional. Em seu livro Trust Factor, ele chega a mencionar que pessoas que fazem mil coisas ao mesmo tempo estão, na verdade, adotando posturas procrastinadoras e que muito provavelmente não são felizes em seus trabalhos.

Trabalhar muito é um sinal de infelicidade, segundo ele. Trabalhar bem é melhor, e muito mais honroso para aqueles que querem retribuir a confiança depositada por seus empregadores.

O psicanalista alemão Freudenberger, descobridor da Síndrome de Burnout, comprovou em 1970, que as principais causas do distúrbio são os altos níveis de estresse e estado emocional desequilibrado. Tudo isso pela procura da famosa “Alta Performance”, comumente confundida com o excesso de atividades simultâneas. A OMS vem registrando casos anuais galopantes, principalmente em profissionais que seguem a cartilha de trabalhar até a exaustão.

E se nenhuma das explicações científicas foi suficiente para te convencer de que o multitasking é sinal de improdutividade, recorro ao filósofo contemporâneo brasileiro Zeca Pagodinho. Em uma entrevista memorável à Jô Soares, em 2010, lhe foi perguntado como ele conseguia fazer tanta coisa ao mesmo tempo: compor, cantar, produzir shows, gravar músicas etc. A resposta, serve para todos nós:

“É muito fácil, basta não fazer nada direito”.

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