Como aproveitar o Caos para Inovar?

Diferente do que muita gente pensa, o Caos que estamos vivendo não nos prenderá em uma jaula de limitações. Ele nos abre um leque de oportunidades sem precedentes.

Os tempos difíceis chegaram. Diversas empresas se mobilizam para sofrer (menos) os impactos da economia por tempo indeterminado. Partindo do pressuposto que todas as informações sanitárias, de saúde e de higiene já foram transmitidas – e repetidas, também é tempo de avaliar como aproveitar as oportunidades e crescer com o momento. Por pior que esteja nossa economia, sempre existem empresas que crescem e prosperam nos tempos de caos. De maneira muito resumida (e a história explica isso), os profissionais e empresas que crescem são aqueles que oferecem maior valor agregado, por menor preço. Em resumo, as crises econômicas são os melhores momentos para inovações disruptivas e para a reinvenção total. É quase uma licença poética para inovar.

O Caos é convidativo para propor qualquer coisa diferente. Aproveitemo-nos dele.

O grande desafio é deixar de lado o tempo em que estamos enfurnados no Caos, e romper o modelo mental, focando em como provocar a ruptura dele. A maior parte das companhias se dedica 100% a enfrentar o caos e sofrê-lo em todos os seus níveis. Uma sensação de luto se instaura por todos os corredores físicos ou virtuais da empresa. E o que acontecerá? Nada diferente do que se imagina: algumas vão sofrer mais ou menos o impacto do Caos. Parece obvio, mas deixa-se uma incrível oportunidade de se reinventar completamente a organização, até porque, focamos apenas na situação crítica.

Assim, empresários conscientes sabem que, ao invés de montar apenas uma “Sala de Guerra” em suas empresas, precisam montar também uma Sala de Caos, que reúna de maneira absolutamente subversiva, toda e qualquer ideia que possa reinventar produtos, modelos de negócios, revisão de custos e digitalização de seus negócios para literalmente invadir o mercado de outros players e não só o de seus concorrentes diretos. Google, Apple e Amazon pensam assim: Se precisar concorrer com Bancos ou Postos de Gasolina, estaremos lá.

Outro ponto crítico a ser observado é o tempo. Se sua empresa adotar uma postura defensiva, de apenas cortar custos, avaliar redimensionamento de pessoas ou mesmo qual a reengenharia é preciso fazer para mitigar as dores, quando a crise passar, seu timing de atuação estará atrasado.

Todas as empresas começarão a pensar como inovar ao mesmo tempo, no mesmo compasso. Isso significa que as inovações serão lançadas, quase todas, no mesmo intervalo de tempo (entre 6 a 12 meses após a crise terminar). Mas se sua empresa se adiantar e começar a pensar nas mudanças neste momento, quando seus concorrentes começarem a compor os “squads” de inovação, você já estará lançando as novidades, ganhando importante diferencial competitivo.

E como conduzir um excelente laboratório caótico? Como começar a repensar a organização para sair na frente logo após a crise e o medo passarem?

Minha recomendação é que você comece a discussão em 4 grandes quadrantes. Reúna pessoas em cada um dos squads abaixo e rotacione os mesmos a cada 2 ou 3 dias. Detalhe: pessoas que estão envolvidas no Comitê de Crise não devem estar no Comitê de Caos. Coloque pessoas sêniores misturadas com juniores, pessoas de IT com vendas, o pessoal da logística junto com o jurídico. Pessoas com muito tempo de empresa com pessoas novas. Ou seja, misture todo mundo.

 

Quick Wins

Monte um grande painel com todos os ganhos possíveis em: melhorias administrativas, geração de receita, comunicação direta, processos mais simples e rápidos, melhoria de cross sell e up sell, inserção de ferramentas mais baratas ou mesmo softwares e tudo aquilo que pode gerar qualquer ganho para a organização sem necessitar investimento. A melhoria de produtividade é o famoso fazer mais com menos. Aqui o raciocínio é mudar os móveis de lugar para dar mais espaço para a sala. O produto final deste squads pode ter como meta o seguinte objetivo: Como espremer a pasta de dente ao máximo possível para ampliar 1 milhão de reais a receita ou reduzir em 1 milhão a despesa. Tudo isso no curto prazo.

 

Se cortar não vai fazer falta

Este segundo squad tem o objetivo de avaliar tudo o que pode ser cortado sem que interfira em nossa vida. A pergunta a ser feita aqui é: Realmente precisamos disso? Se no primeiro squad o objetivo é maximizar o que temos, aqui, a lógica é a visão de redução de custos e despesas. Precisamos utilizar uma agência de viagem para comprar nossas passagens? Estamos pedindo 3 orçamentos para a compra de insumos básicos? Estamos utilizando todas as licenças de software que compramos? Realmente precisamos de 5 impressoras? Perguntas assim precisam ser realizadas sem qualquer possibilidade de melindre entre seus participantes. O objetivo não é caçar as bruxas, mas sim, ganho de eficiência.

 

Mudança Total

O terceiro squad é para uma provocação absolutamente inovadora. Passa pela reinvenção total da empresa. Adotamos aqui uma premissa: Todas as ideias precisam sugerir coisas diferentes do que fazemos hoje. Nada do que for sugerido pode ser igual ao que fazemos. Por exemplo: Se vendemos celular por lojas, uma das propostas deveria ser: vender celulares por internet (se não vendermos ainda pela net). É um exemplo simples, mas apenas para reforçar que a regra é propor algo que fazemos hoje, porém, de forma diferente. Nada pode ser igual. E claro, ao mesmo tempo que abrimos um precedente para reinventar a organização, aqui as ideias precisam ser realistas. Se sou um banco não adianta propor entrar no mercado de advocacia. Vale propor novos papéis e responsabilidades, uma nova estrutura hierárquica, novos crachás, jeito novo de vender, atender, ganhar ou gastar o dinheiro. Tudo diferente.

Cruzamento

Neste momento todos os squads se reúnem para avaliar as sugestões. Se você fizer de maneira acertada, esse exercício terá pelo menos 300 ou 400 sugestões para discussão. Agora é identificar tudo o que pode ser implementado. Recomendo que você avalie as implantações no squad 1 ainda no momento da crise (para ganhar a competitividade que mencionei). Este exercício é uma forte provocação do que é possível fazer para mudar a companhia. Em geral, a análise de custos e investimentos é feita aqui. Os financeiros entram de cabeça e avaliam os ganhos de curto, médio e longo prazo. A festa está feita.

Mais do que aproveitar o momento para repensar a empresa, digo que um dos produtos mais incríveis deste exercício é a mudança de mindset. As pessoas deixam de pensar o tempo todo nos problemas e nas notícias ruins e são convidadas a repensarem suas vidas e seus propósitos corporativos. O Caos provoca sentimentos bons e ruins, apenas precisamos decidir qual deles queremos sentir boa parte do dia.

Alberto Roitman é uma alma livre. Autor dos livros Você é o que Você Entrega! e A Última Chance.

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